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2007-12-22

É Natal em Portugal

Em Portugal,
Nunca supus,
Que houvesse Natal
Sem Menino Jesus.

Há brilho nos pinheiros,
Como candeeiros,
Para imitar as estrelas,
As cores não são delas:
São escapadelas,
Fugazes e belas.

Há galões dourados,
Sinos prateados,
Renas, veados,
Seres encapuçados,
Trenós
E totós…
Endividados,
Ou ofuscados,
Com o brilho das montras,
Mas vão às compras,
Com dinheiro de plástico,
Que não é elástico,
Para suster ilusões
Ou aspirações.

Só em Portugal,
Se acredita,
Que o Pai Natal,
Tem a sina bendita,
De trazer subsídios,
Para os suicídios,
Das bolsas falidas,
Ou enfraquecidas.

Tudo evolui,
Até o Natal,
Já tem carrosséis,
Viagem de póneis,
Alegres e dóceis,
E um Pai Natal,
Saído do frio,
Que fez um desvio,
Tremendo, abissal,
E substitui,
O que nunca supus,
O Menino Jesus,
Nas palhas deitado,
Nas palhas esquecido,
Em palhas cuidado,
Em palhas perdido.

Félix Rodrigues

Boas Festas para todos. Boas Festas de Natal.
A palavra cultura deriva do latim cultura e é um termo com várias acepções, em diferentes níveis de profundidade e diferente especificidade, mas é em termos sociais o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural. Por sua vez a palavra Natal deriva também do latim natális, essa por sua vez é derivada do verbo nascor, nascéris, natus sum, nasci, que significa nascer ou ser posto no mundo. Como adjectivo, significa também o local onde ocorreu o nascimento de alguém ou de alguma coisa. Como festa religiosa, o Natal, comemorado no dia 25 de Dezembro desde o Século IV pela Igreja ocidental e desde o século V pela Igreja oriental, celebra o nascimento de Jesus e assim é o seu significado nas línguas românicas - italiano natale, em francês noël, em catalão nadal, em espanhol navidad e em português natal.
No contexto anteriormente referido, onde se encaixa o Natal actualmente comemorado em Portugal, apreendido através da sua praxis ou apreendido através da cultura que lhe está subjacente?
Pode acreditar-se ou não no Menino Jesus, pode comemorar-se ou não as datas propostas pela Igreja, o que não parece ser coerente é a utilização de uma data com um determinado significado para a transformar em algo cada vez mais irracional: pela poluição que causa, pela ideologia que agrega, pela desorientação que provoca.
Esta época é de Natal. Que Natal?

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2007-12-01

Sociedade do desperdício

O desperdício do amor
É o caminho da dor.
A dor de amor
É romantismo,
E por vezes lesão
No coração.


Se existem virtudes,
Nas atitudes,
Excepto nas prepotentes
Que não são convincentes,
É porque não há estética
Na arrogância,
Mesmo mimética.
Há sim, petulância.
Não há estética no exibicionismo,
No despesismo,
Ou no consumismo.
Aí há o vício,
Do desperdício:
Da energia mental,
Do bem social,
Ou da ostentação,
Numa satisfação,
Unipessoal.

Se o desperdício
Tem uma história,
Não há memória
De ser tão intenso,
Como no período actual
De um mundo global.
Custa imenso,
Suportar este vício
Do desperdício.
Traz fome e traz guerra,
E a Terra…emperra…

Félix Rodrigues

Onde desperdiças?

A sociedade hodierna é assumidamente uma sociedade de consumo. Produz-se para consumir e consome-se mais para produzir mais, num rodopio semelhante ao de um ciclone que visto de cima é uma imagem fantástica da pujança da natureza, mas que visto de baixo resulta em morte e destruição.
A crescente dificuldade de gestão dos resíduos sólidos nas sociedades desenvolvidas actuais, prende-se com a incapacidade da gestão acompanhar o crescimento de produção de resíduos, sendo essas dificuldades acentuadas em regiões com espaços exíguos, o que obriga à sua exportação. As atitudes conscientes da população ajudarão não só a promover sistemas adequados de gestão de resíduos sólidos urbanos como também a reduzir a sua produção.
Em épocas festivas, como a época natalícia que se aproxima, a produção de resíduos cresce quase exponencialmente, o que quer dizer que o desperdício assume proporções quase irracionais.
Que felicidade traz a uma criança a posse de vinte Action Man's, a posse de dez jogos de computador ou a posse de brinquedos que se distribuídos ao longo do ano ultrapassariam a possibilidade de ter um brinquedo novo por dia?
Somos ricos. No entanto há gente pobre: muitos daqueles que produzem os brinquedos em excesso dos nossos filhos e aqueles que não tendo alimento nem conseguem brincar, mesmo que lhes oferecêssemos os brinquedos.
A cultura do desperdício, começa a atingir áreas não tradicionais como as relações humanas, em que até alguns seres humanos passam a ser descartáveis em nome do progresso, da qualidade de vida, do crescimento do PIB, do lazer, etc, etc. Quanto mais desperdiçamos mais nos encalacramos e mais ostentamos.
Antes chamávamos luxúria ao excesso, agora chamamos poder de compra. Ao que chamamos subdesenvolvimento, é por vezes falta de solidariedade.
É desperdício tudo aquilo que não tem uma função: nem sequer estética.

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