Etnobotânica
Os chás da minha avóTambém levavam carinho.
Aprendeu com a bisavó,
As virtudes do rosmaninho.
Quanta sabedoria existia,Na simples colheita de erva,
Bem guardada em reserva
Na dispensa da avó,
Bem protegida do pó,
Como para fazer alquimia,
Numa doença ou agonia?
Quanta ciência escondia,As mãos envelhecidas,
As peles ressequidas,
Cansadas do dia a dia?
Sabia que qualquer doença,
Isso era a sua crença,
Se curava com um chá,
Daquilo que a terra dá.
Que conhecimento rejeitas?
O conhecimento empírico das gerações anteriores à nossa pode entender-se como sendo o conhecimento que se adquiriu no decorrer do árduo dia a dia através de tentativas e erros num agrupamento de ideias e procedimentos que ainda hoje pode ser válido. Com a construção positivista do conhecimento, onde se procuraram relações causa-efeito e se estudam as relações existentes entre os factos que são directamente acessíveis através da observação, desvalorizou-se drasticamente o conhecimento empírico. Entende-se que a grande diferença entre um e outro conhecimento reside na teorização das observações. No conhecimento empírico não se teoriza, e por tentativa e erro, descobrem-se as aplicações de determinados materiais. Na ciência positivista, por tentativa e erro chegam-se aos resultados que se encaixam numa teoria, e a partir dela, perspectivam-se novas aplicações. Tanto um como outro processo é conhecimento, até porque, foi a partir do conhecimento empírico que se começaram a investigar pormenorizadamente um grande conjunto de fenómenos naturais.
A utilização de plantas medicinais para prevenção e tratamento de doenças ocorre desde os primórdios da humanidade, mas a partir do século XVIII, começou a ser desvalorizada com o fortalecimento da química, mais concretamente da farmácia.
Hoje em dia, os detentores do conhecimento empírico relacionado com a aplicação medicinal das plantas são essencialmente idosos, e em vez de o valorizarmos, apelidamo-lo de retrógrado ou antiquado. Se nos perguntássemos se haverá alguma verdade científica positivista nesse conhecimento, ficaríamos perplexos. Conhecemos muito pouco, para que possamos perder ou rejeitar conhecimento.
A etnobotânica, ciência que ligada à botânica e à antropologia estuda as interacções entre os indivíduos e as plantas, afirma-se cada vez mais, numa tentativa de resgatar valores ancestrais e potenciar o desenvolvimento sustentável das populações indígenas, ou até mesmo, rurais.
Aproveitemos então, os conhecimentos empíricos dos nossos avós, o máximo que pudermos.
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