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2007-09-22

Cresce Cagarro

Cagarrito. O Cagarrito,
É Cagarro pequenito,
Deixado no buraquito,
De lava ou de traquito.

Fotografia de Paulo Henrique Silva no CD multimédia "A Madrugada das Cagarras"
.


Cagarrinho. O Cagarrinho,
É Cagarro pequenino,
Que busca como um menino,
Rumo para o seu destino.

Ilustração de Bernardo Carvalho no livro infantil "Zeca Garro" de Filipe Lopes e Carla G. Silva



Oh! Cagarro. Seu Cagarro.
Com o teu bico bizarro
Afasta-te desse carro,
Que contigo ainda esbarro.

Ilustração de Bernardo Carvalho no livro infantil "Zeca Garro" de Filipe Lopes e Carla G. Silva
.
Cagarrão, seu Cagarrão.
Procuraste no mar um vulcão,
Para fazeres uma criação,
Com muita dedicação.

Fotografia de Paulo Henrique Silva no CD multimédia "A Madrugada das Cagarras"

Félix Rodrigues
Qual é a ave que mais aprecias?

O Cagarro, a Cagarra ou Pardela, é uma ave marinha de nome científico Calonectris diomedea, onde a subespécie borialis nidifica maioritariamente no arquipélago dos Açores (perto dos 76% da população mundial).
Nesta altura do ano, nos Açores, os juvenis começam a abandonar os ninhos e por vezes chocam com as luzes de automóveis ou da iluminação das estradas.
Há necessidade de reencaminhar esses animais, que se encontram muito desorientados na via pública. No arquipélago existe a campanha SOS Cagarro que tem exactamente essa finalidade.
Os gritos do cagarro impressionaram os primeiros povoadores das ilhas, depois foi seu alimento, mais tarde, os seus medicamentos, e hoje é, o seu contentamento. A mentalidade cresceu, tal qual cresce o cagarro: com dificuldades, trabalho árduo e uma enorme vontade de partir e de ficar nas ilhas.
Ninguém fica indiferente ao grito do cagarro, ou se apaixona ou se arrepia. Esses sons são a sonorização das nossas noites de Verão, como o verde é a cor dos nossos pedacinhos de terra.
Todos anos regressam à terra que os viu nascer, para ocupar os mesmos buracos naturais ou construídos, muito antes dos homens e mulheres que imigraram para as Américas regressarem, por não conseguirem passar um Verão sem o ar, o verde, o mar e o som açoriano.
As fases de desenvolvimento dos humanos podem ser comparáveis às fases de desenvolvimento do cagarro: cagarrito, cagarrinho, cagarro e cagarrão, todas elas agarradas a lava dispersa no mar.
Num arquipélago rejeitado por andorinhas, que aqui não pousam, a natureza entendeu arranjar um substituto que também vem do sul, mas do mar, porque as ilhas estão envolvidas pelo sal e pelo aroma do Atlântico.
As andorinhas açorianas vêem-se à noite, em pleno voo, ritmado pelos sons agudos das suas gargantas, por isso, sabemos que cá estão, mas dificilmente os sabemos descrever. O primeiro encontro de um homem com um cagarro, também é, normalmente, o primeiro encontro de um cagarro com um homem. Estão os dois em situação de igualdade, ambos assustados, ambos extasiados.
Precisamos crescer em conjunto.
Cresce cagarro, porque enquanto o fazes, também eu estou a crescer.

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A Azoriana atribuíu a este blog um trevo de quatro folhas, como "amuleto da sorte". Atribuo o mesmo a todos os blogs constantes na lista ao lado.

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