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2007-09-08

Vida de Lavrador

“Verde são os campos,
Da cor do limão”,
Cuidar dos animais,
É o meu ganha-pão.

Fotografia de Ana Ribeiro
Anda cá minha vaca Malhada,
Vermelha, Preta, Amada.
As minhas vacas tinham nome,
Carácter, apelido e sobrenome.

Tinha meia-dúzia delas,
Que a todas conhecia,
Até que uma vez, um dia,
Disseram-me que teria
De fazer as “reviradelas”
Que a economia exigia.
Fotografia de Luis França


Deram-me um tractor,
Para a terra trabalhar,
Chamaram um doutor,
P’ra me vir aconselhar.
Ensinou-me uns pronomes,
E outras coisas que não sabia.
As vacas perderam os nomes,
Como da noite para o dia.

Comecei a adubar,
Tal como me disseram,
Depois de uns anos passar,
Vêm-me dizer, então,
Que o bom era estrumar,
Por causa da poluição.
Custou-me a acreditar,
Porque eram assim as sementeiras,
E que teria de voltar,
Por causa do encabeçamento,
Ao número de vacas leiteiras,
Que tinha lá noutro tempo.
Cheguei à simples conclusão:
À medida que o tempo passa,
O conhecimento que adquiri,
De geração em geração,
Não o vou abandonar,
Foi por ele que recebi,
Campos cor de limão,
P’ra ainda hoje trabalhar.

Félix Rodrigues
O que distingue a ruralidade da urbanidade?

O relacionamento do homem com o campo e com a natureza pode parecer bucólico, pode parecer poético, mas é essa visão menos tecnicista, menos economicista que leva a um respeito pela natureza, pelos outros e capaz de construir a serenidade que a vida rural tem.
Os tempos mudam e a ruralidade altera-se bem como os valores que englobava como o relacionamento inter-pessoal ou inter-geracional.
A produção animal, incentivada para ser intensiva, por políticas nacionais e internacionais, descaracterizou-se relativamente aquilo que era no passado, porque não atendeu às perspectivas de desenvolvimento incorporadas na mentalidade rural. Antes da produção animal massificada, até as vacas tinham nomes próprios, porque além dos seres humanos, também recebiam nomes próprios os demais seres vivos, mesmo sendo todos da mesma espécie.
Tal como afirmam Vidal e co-autores em 2007, antes de se direccionarem projectos é fundamental saber contextualizá-los, respeitar as idiossincrasias locais e articular a participação dos diferentes intervenientes em propostas de requalificação. É importante o reconhecimento dos seus direitos, experiências, saberes e, principalmente, o entendimento de que são os sujeitos que aí habitam que detêm responsabilidades na manutenção e gestão do seu espaço.

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9 Comments:

At 14:40, Blogger as-nunes said...

Boa tarde, Angra.
Gostava de estar aí, agora! Na Praça Velha, a tomar uma café, talvez. A olhar, a pensar...Depois passear pela cidade toda, coisa que não consegui há um ano atrás, apesar de ter estado 8 dias na Terceira.
Será que há mais marés que marinheiros?
antonio

 
At 15:13, Blogger Era uma vez um Girassol said...

Quanta verdade, amigo Félix, gostei especialmente deste post...
Vida sã, contacto com os animais, as plantas, o viver as coisas simples.
Uma riqueza!
Se calhar é preciso fazer marcha atrás no tempo!
Bjs

 
At 13:29, Blogger Cristina said...

Meu queridíssimo amigo Félix!!!

Amei teu post (como sempre) e talvez um pouco mais, por eu adorar a vida no campo, na roça, nas fazendas... Sempre tive uma terrinha fora dos grandes centros onde eu vivi e meus filhos felizmente, puderam desfrutar dos benefícios da vida livre do campo. Sempre tiveram muitos animais e quando eram pequenos, eles me pediam de presente de Natal e aniversário, vaquinhas, cavalos, cabrinhas e a diversão era encontrar nomes próprios que se parecessem com a carinha deles... Tiveram a Carol, a Felícia, a Amanda, o Cigano, a Anhumã e enfim... Tantos e eram todos tratados com tanto carinho e tanto valor, pelo muito que nos ofereciam...
No semestre passado fiz um trabalho sobre ética na produção de alimentos e há de fato uma mudança imposta pela produção em larga escala, que fez com que o respeito pela vida e pelo meio ambiente, se dissipasse por completo e uma tentativa de resgaste que implicará em pelo menos muitos anos de empenho para que a consciência e o respeito, possam voltar. Se é que isso terá volta...

Beijos Félix!!!
Cris

 
At 13:31, Blogger Cristina said...

A Cristina aí de cima sou eu Félix, a Cris do Lamina d'Água e não sei a confusão que eu fiz que deu nisso!!!

Outro beijo!!!
Cris

 
At 13:54, Blogger Woodworm said...

Excelente post... pouco mais de um ano passou, desde que deixei a Terceira, mas as saudades já são muitas...

Abraço

 
At 21:35, Blogger geocrusoe said...

Focas artisticamente um problema que foi destruição da relação saudável do homens do campo com o seu terreno e gado, por motivos técnicos e económicos irracionais. Mas depois de se verem as consequências, procura-se fazer o mesmo homem voltar à relação antiga - só que a sociedade já não é a mesma,introduziram-se muitos preconceitos contra a anterior agricultura para convencer o agricultor e agora dar a volta, manter a qualidade de vida é um novo desafio que artisticamente alguém terá encontrar a solução. Um Bom post Felix e com muita matéria para comentar e discutir.

 
At 21:25, Blogger Lua dos Açores said...

Ofereço-te o meu post no Comparar http://www.compararsantamaria.blogspot.com/ com o título Carne de origem demarcada? Certificada?


Beijinhos

 
At 22:50, Anonymous mcb said...

Ó meu Alferes, está-se tão bem no campo!

 
At 16:03, Anonymous Anónimo said...

Está lindo e certíssimo... está tudo dito!

Como diria o "Baptista", "é isse mueme..."

Abraço ao meu eterno Professor.


Helder Xavier

 

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